Megan Harmes, aos 24 anos, reflete sobre as consequências devastadoras do uso da cetamina, uma droga que experimentou pela primeira vez aos 14. Após anos de abuso, a jovem está em um programa de reabilitação, tentando recuperar a vida que a substância ameaçou destruir. Os danos à sua bexiga são um lembrete constante de sua luta, obrigando-a a usar absorventes devido à incontinência urinária.
A Kaleidoscope, uma organização que oferece suporte a dependentes químicos, registrou um aumento alarmante na demanda por seus serviços. Em cinco anos, o número de encaminhamentos para tratamento de dependência de cetamina saltou de apenas duas pessoas em 2021 para 112 em 2023, com a maioria dos pacientes na faixa etária de 18 a 24 anos. Esse cenário evidencia uma preocupação crescente com o uso da droga, que, no Reino Unido, é classificada como uma substância ilegal fora de condições médicas específicas.
No Brasil, a cetamina também é controlada, com uso restrito a ambientes de saúde. A Anvisa autorizou, em 2020, o uso de um spray nasal de escetamina para tratar depressão resistente, mas o uso recreativo continua a trazer riscos. Pesquisas recentes indicam que a droga está se tornando comum em festas e festivais, especialmente entre os jovens.
O que torna a situação ainda mais alarmante é a rapidez com que os danos físicos se manifestam. Estudos da Universidade do Sul do País de Gales revelam que os efeitos colaterais do uso contínuo de cetamina aparecem de forma mais acelerada do que os associados ao consumo de álcool ou outras drogas de classe A. Isso exige uma reavaliação dos serviços de tratamento, que historicamente atendem um público mais velho.
Durante a pandemia, Harmes viu sua vida desmoronar enquanto o uso de cetamina se tornava uma forma de escapar dos desafios diários. A acessibilidade da droga, que se tornou mais barata, e a solidão do trabalho remoto contribuíram para um ciclo vicioso que a afastou de suas aspirações profissionais e pessoais.
As consequências para Harmes foram severas, levando-a a um ponto em que seu estado de saúde se deteriorou e sua dignidade foi comprometida. “Aos 22 anos, ter que usar absorventes ou fraldas acaba com a dignidade de qualquer pessoa”, desabafa. Agora, em tratamento, ela relata uma melhora em sua saúde física, embora os danos à bexiga ainda sejam uma incógnita.
Jo Moore, da clínica Birchwood, confirma o aumento no número de pacientes, destacando que, nos últimos tempos, a demanda por tratamento de dependência de cetamina tem crescido entre pessoas com idades variadas, inclusive aquelas acima de 25 anos. A facilidade de acesso à droga e seu baixo custo tornam o problema ainda mais complexo, exigindo uma abordagem diferenciada nos serviços de saúde.
A situação de Mark, que pediu para não ser identificado, ilustra os desafios enfrentados por muitos jovens que se tornaram dependentes de cetamina. Ele descreve sua saúde como deteriorada a ponto de se sentir como um idoso de 80 anos. “O que começou como uma forma de diversão se transformou em uma prisão”, afirma, refletindo sobre como a dependência o afastou de sua família e de suas responsabilidades.
O cenário atual requer uma resposta eficaz das instituições de saúde para atender a um público jovem, muitas vezes deslocado e em busca de apoio. No entanto, a falta de familiaridade com os efeitos da cetamina entre profissionais de saúde representa um obstáculo significativo. A urgência de adaptação dos serviços de atendimento é evidente, à medida que os casos de dependência se tornam cada vez mais frequentes.
Enquanto os pesquisadores, como Darren Quelch, continuam a investigar as melhores formas de tratamento, a experiência de pessoas como Megan e Mark destaca a importância do apoio comunitário e da empatia no processo de reabilitação. Eles mostram que, apesar dos desafios, há esperança e a possibilidade de reconstruir vidas que foram afetadas pelo uso de substâncias. “Hoje, encontro alegria em ajudar quem está passando por dificuldades”, diz Mark, refletindo uma nova perspectiva que se desenvolveu a partir de sua própria luta.



