Em um cenário onde a saúde da população idosa muitas vezes fica à margem das discussões, o 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa (Gastro 70+) surge como um evento necessário e oportuno. Marcado para os dias 30 e 31 de outubro em São Paulo, o congresso visa abordar os desafios específicos que a longevidade impõe, especialmente em relação ao câncer gástrico, uma enfermidade que, segundo estimativas, pode afetar mais de 40 mil brasileiros até 2050.
O gastroenterologista Luiz Gonzaga Vaz Coelho, uma autoridade no assunto e professor na Faculdade de Medicina da UFMG, alerta para a crescente incidência de cânceres relacionados à infecção pela bactéria Helicobacter pylori. Segundo ele, a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas, o que torna a detecção precoce um verdadeiro desafio. “Todo indivíduo que é infectado desenvolve uma inflamação silenciosa que pode culminar em câncer gástrico na velhice”, explica Coelho.
A H. pylori é uma bactéria que costuma ser adquirida na infância e está classificada pela Organização Mundial da Saúde como um carcinógeno do Grupo 1, ao lado de substâncias como o tabaco. Países com altas taxas de câncer gástrico, como Japão e Coreia, já implementaram políticas de rastreio da bactéria em suas populações para facilitar diagnósticos precoces. No Brasil, essa abordagem ainda é incipiente, mas a conscientização está crescendo.
Embora o tratamento da infecção seja geralmente simples e envolva antibióticos, o diagnóstico é dificultado pela ausência de sintomas. “Na maioria dos casos, o processo inflamatório crônico vai alterando a mucosa do estômago até que a doença se manifeste em um estágio avançado”, ressalta Coelho. Para contornar essa dificuldade, métodos menos invasivos, como testes respiratórios e de antígeno fecal, podem ser utilizados como alternativas à endoscopia.
É importante frisar que, para os pacientes idosos, a realização de endoscopias deve ser avaliada com cautela. “Não é a idade por si só que determina a necessidade do exame, mas sim a condição geral do paciente. O risco e o benefício de um procedimento invasivo precisam ser pesados”, alerta o especialista.
A Federação Brasileira de Gastroenterologia lançou a campanha Setembro Rubi, que visa aumentar a conscientização sobre o câncer gástrico e promover a prevenção, especialmente entre familiares de pessoas com histórico da doença. Este grupo enfrenta um risco duas a três vezes maior de desenvolver o câncer, o que torna a detecção precoce ainda mais crucial.
A percepção de que apenas o sal poderia ser a causa principal da gastrite foi desmistificada: o risco de gastrite e, consequentemente, de câncer gástrico é potencializado pela presença da H. pylori, especialmente em indivíduos que consomem sal em excesso e fumam. Os sintomas, que incluem dor persistente no estômago e presença de sangue nas fezes, costumam aparecer apenas em estágios avançados da doença.
A realização do Gastro 70+ é um passo importante na direção certa, ao reunir especialistas para discutir temas que afetam diretamente a saúde da população idosa, promovendo um debate que, sem dúvida, precisa ser ampliado.
Crédito da imagem: Foto: Pixabay — analogicus (pixabay)

